Massas e multidões hiperconectadas
André Lemos - Cibercultura e Mobilidade faz a passagem entre a massa proposta por Canetti em Massa e Poder com a idéia de smart mobs - conceito de Howard Rheinghold. Eu utilizo o conceito do Canetti para definir uma sociedade que se constitui no movimento tanto das maltas como das massas no contexto da tradição filosofica espinosona. Essa passagem abaixo vai ser útil para fazer o link entre as massas e a multidão....
As massas entram na era da conexão. As smart mobs encaixam-se nas definições de massa de Elias Canetti e na visão da revolução das massas de Ortega y Gasset. Devemos, rapidamente, mostrar essa filiação para não cairmos na visão ingênua de um ineditismo do fenômeno. A novidade é instrumental: o uso de tecnologias digitais móveis nas grandes metrópoles contemporâneas. Vejamos.
Ortega y Gasset mostra, em livro de fins da década de 20, o fato do “advento das massas ao pleno poderio social” (Ortega y Gasset, 1962, p. 59). A questão da multidão interessa o autor como fenômeno urbano e das sociedades industriais. A frase que se segue poderia muito bem expressar o que acontece hoje, na era da conexão:
"a multidão, de repente, tornou-se visível, e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. Antes, se existia, passava inadvertida, ocupava o fundo do cenário social; agora adiantou-se até às gambiarras, ela é o personagem principal. Já não há protagonistas: só há côro” (Ortega y Gasset, 1962, p. 62). Mais ainda, “creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas (...). Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei, por meio de pressões materiais, impondo aspirações e seus gostos” (p. 66). Vivemos sobre o brutal império das massas (p. 69)."
Elias Canetti, em obra seminal publicada em Hamburgo em 1960, vai traçar uma radiografia das massas que pode nos ajudar a compreender o conceito de “massas inteligentes” proposto por Rheingold. Para Canetti, é pela massa que o homem se libera da fobia do contato e por ela pode ser integrado ao todo. Na massa o homem se sente “a l’intérieur d’un même corps” (1966, p. 12).
Canetti vai mostrar que as massas se constituem basicamente nos tipos “fechada” (limitada, circunscrita, formalista, institucional) e “aberta” (que agrega e não pára de crescer, a massa propriamente dita), no qual a sua formação se dá pela “décharge” (forma de descarga que agrega). É pelo “éclatement” (explosão) que uma massa de tipo fechada pode se configurar como uma massa ao tipo aberta. Canetti mostra então as quatro propriedades da massa. São elas: 1. Ela tende sempre a crescer; 2. Na massa reina a igualdade; 3. A massa ama a densidade, e; 4. A massa tem necessidade de uma direção. Essas características levam a uma classificação das massas como: 1. Fechada e aberta (referente a propriedade 1, crescimento e igualdade); 2. Rítmica e estagnante (referentes às propriedades 2 e 3, densidade e direção); 3. Lenta e rápida (refere-se aos objetivos).










Comentários
Enviar novo comentário