Tecnologia maquínica

Guatarri, em Caosmose, denomina maquínico o estrato de sentido formado por matérias expressivas heterogêneas, não-linguisticamente formadas, mas ainda assim de natureza semiótica. Substâncias de expressão heterogêneas como as codificações biológicas ou as formas de organização própria ao socius - como aquelas derivadas de instituições como a família ou a escola - atravessam, transversalmente, os domínios de sentido propriamente linguísticos. [Caosmose, p.35-38].

Para Guatarri, a informática e a tecnociência não são nada mais do que formas hiperdesenvolvidas da própria subjetividade. Aqui entram fatores subjetivos das atualidades históricas (componentes semiológicos significantes que se manifestam através da família, educação, esporte, cultura, meio ambiente, arte e religião,) o desenvolvimento em escala das produções maquínicas de subjetividade (elementos fabricados pela indústria das mídias, cinema, máquinas lingüísticas etc. e por último, os aspectos etológicos e ecológicos relativos a subjetividade humana, a ecologia social e a ecologia mental. E, são trabalhado por agenciamentos coletivos de enunciação.

Uma máquina que não fosse investida de desejo e alimentada de subjetividade seria um corpo sem vida. Todo corpo tem sua artificialidade e toda máquina tem sua virtualidade. A tecnologia é, portanto, a prótese [DELEUZE. Conversações, 1998.p.122]. É o corpo sem orgãos, que para Deleuze é como o mecânico supõe uma máquina social. O próprio organismo supõe um corpo sem órgãos definido por suas linhas, seus eixos e seus gradientes. Todo um funcionamento maquínico distinto das funções orgânicas sociais tanto quanto das relações mecânicas.

Nesse contexto, podemos perceber que é a primeira vez na história da humanidade que a realidade do aqui e agora se encontra imersa nas tramas de uma temporalidade maquínica. A tecnologia como fato cultural multitemporal. Heidegger diz que a finitude do tempo só se tornava plenamente visível, quando o tempo sem fim se explicitava, por contraposição à finitude. Vivemos, então, nesta contraposição. E assim, percebemos a desconteneirização não só do tempo, mas do espaço, do ser e do conhecimento. Serres diz, o tempo multitemporal passa e não passa. ele percola.

Segundo Serres, o tempo funciona como um filtro, que ora faz passar, ora impede a passagem. É desta forma que as tecnologias remetem ao duplo movimento de aceleração e desaceleração, inovação e tradição, desterritorialização e territorialização. A contemporaneidade se caracteriza cada vez mais pela edição ou a forma como as partes do sistema são montadas ou articuladas. Esta é a cultura do remix.

E, nessa cultura remixada, misturada e miscigenada. Uma cultura que se desenvolve em rede exige o reconhecimento por parte da consciência.. A partir de então, a filosofia ficou diferente, não pôde mais ignorar o estar-com-os-outros. Não se pode ignorar as relações em rede.

Podemos nos lembrar das teses de Leibniz e dos muitos caminhos possíveis que podem ser percorridos. São diferentes os percursos para cada indivíduo. Diferentes, portanto, a forma como cada um pode perceber onde vive, como vive e, escolher seu tempo. Se somarmos todos os percursos, teremos reconstituído uma pluralidade de mundos dentro de um mesmo e único mundo.

O fato de estar trilhando por caminhos obscuros, pela bifurcação da vida nos faz um experimentador de diferentes sentidos. ...eu sentia que o mundo é um labirinto, do qual era impossível fugir, pois todos os caminhos, ainda que fingissem ir ao norte ou ao sul, iam realmente à Roma [Jorge Luis Borges]. Cá está o paradoxo!

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