EntrarNavegaçãoVizinhançaBlogadas recentes
|
Redes protagonistas
Minha filha pediu-me para ajudá-la na associação da frase 'Sapo não pula por boniteza. Pula por precisão' com Augusto Matraga, personagem de Guimarães Rosa. Sapo não pula para se mostrar. Pular é inerente ao sapo. Pula para a sua sobrevivência.
Não será diferente para Augusto Matraga. Ele mata por necessidade. Com exatidão. Assim como a nossa civilização destrói mundos por necessidade. A autodestruição da humanidade não costuma ser matéria das minhas análises. Mas entendo que, da maneira que estamos tocando as nossas vidas, teremos mais uns cem anos para decretarmos o estado de falência total. Meus netos estarão cobertos por uma nuvem de gás carbônico. Impossível viver assim. Não dá para esperar o tempo passar. Algo tem que ser feito aqui e agora. As mudanças estão acontecendo. As tecnologias de informação e comunicação têm transformado o mundo de maneira profunda, não só no sentido de possibilitar um nível crescente de troca de informação, mas também afetando as bases da sociabilidade, do sentido de comunidade e das diferentes formas de aprendizado. A Internet pressupõe participação. As novas mídias sociais só funcionam porque as pessoas têm a necessidade de fazer circular a informação de um modo que seja relevante para elas e para os seus "vizinhos". A informação se configura em conversas: são links, são blogs, twitters. São textos, imagens, sons que se espalham, se redificam. Não estamos falando aqui de um mero altruísmo, ao contrário, são formas de ocupar espaços, de adquirir reconhecimento disseminando aquilo que nos chama a atenção, que nos afeta e que, de certa maneira, nos envolve. São redes que permitem às pessoas compartilhar informação, de forma dinâmica, processos de ensino-aprendizagem pontuais e auto-geridos, que em escala assumem uma natureza abrangente. A lógica da aprendizagem distribuída é o efeito prático do modelo de trabalho imaterial promovido pelas comunidades de software livre. A gestão do desenvolvimento do software se dá pelo compartilhamneto de conversas na comunidade. Assim, a estratégia de aprendizado distribuído estimula as pessoas a criarem rastros de aprendizado a partir de sua navegação cotidiana pela web, e possibilita que esses rastros possam ser agregados em outros ambientes a partir da adoção de microformatos. Esses rastros se misturam na rede. Emergem nas comunidades. Falar é barato. O silêncio é fatal. Na internet a participação é protagonista. Cada um é responsável pela sua ação em rede. Aquele que não publica não existe. Creio que a Internet já nos mostrou que muitas das instituições estão com os dias contados. Uma organização caótica responsável pelo download ilegal de música. Uma organização que conta com pessoas não muito diferentes de mim ou de você. Não foi necessário colocar um curso on-line ensinando como baixar música. O Orkut foi invadido sem batalhas. O Obama foi eleito pelos amigos dos amigos. Uma sociedade que começa a se constituir protagonista, fruto da essência hacker que se estabeleceu como o bom senso digital, implica na ativação de redes baseadas naquilo que cada pessoa compartilha, criando grupos emergentes de aprendizado e compartilhamento de referências. As pessoas aprendem em rede. E ensinam quando seus pares validam o conhecimento. No ensino, ao contrário do que sempre ocorreu, o professor terá de partir partir do mundo real para o pedagógico. Isso significa que a escola começa se alimentar da inteligência coletiva que emerge da rede. Uma revolução não-televisionada, que rompe os muros da educação.
|
Enviar novo comentário